Surdez e Déficit de Atenção

Tenho acompanhado entre meus pacientes e ouvido de professores a dificuldade de atenção entre algumas crianças com deficiência auditiva. Não é geral, mas é importante a incidência de dificuldade de atenção entre as crianças surdas.


Por vezes algumas crianças já vinham da escola com um diagnostico de hiperatividade e déficit de atenção, colado na testa por algum profissional.


Olhando mais atentamente, e principalmente procurando pensar o caso pude perceber o efeito que o estimulo auditivo tem no desenvolvimento da atenção.


O canal de comunicação auditivo, com sua particularidade de fazer perceber apenas um recorte bem pequeno da realidade, mesmo assim colocado de forma linear dá contingência a percepção visual a medida que realça ou desfoca os estímulos percebidos pelos outros sentidos, principalmente da visão que nos traz uma enxurrada de informações.


Com a visão percebemos uma amplitude de informações tridimensionais com variáveis de cor e movimento, maior muitas vezes que a capacidade de processamento do cérebro. É a audição na maioria das vezes que nos permite fazer o recorte desses estímulos e estabelecer um dialogo entre figura, aquilo que se quer observar, e fundo, o contexto.


A ausência ou deficiência da audição, deixa a mente a deriva no mar infinito de estímulos que os outros sentidos nos traz, quando não existe outra estratégia para focar apenas um detalhe de tudo que estamos percebendo.


Quando olhamos pela janela do carro vemos mil estímulos e depois de já treinados destacamos apenas aqueles que nos interessa como por exemplo o sinal, o carro da frente e o de traz. É fato que podemos alternar nosso foco muito rapidamente entre os elementos que somos capazes de perceber, mas precisamos de algo que nos faça olhar para isso ou para aquilo, focar isso ou aquilo. Depois de treinados, com os apontamentos de nossos pais, nos mostrando o que devemos ver e nos chamando a atenção para isso ou aquilo, seja por apontamento da mão, movimento ou principalmente associação do visual com o estimulo sonoro passamos a orientar nosso foco a partir de um dialogo interno baseado em nosso pensamento, treinamento ou interesse pessoal.


A criança com Déficit auditivo não tem essa associação entre a imagem ou percepções sinestésicas e o som. Assim quando não se utiliza de outras estratégias para treinamento de seu foco fica a deriva dos estímulos. Não por uma questão orgânica como no caso dos hiperativos que precisam de medicamento, mas por uma questão de não treinamento da atenção.


Assim a criança surda deve ser compensada da privação dos sons com estímulos outros que o permitam associar entre si as percepções de forma a estabelecer significados a partir do destacamento da figura e do fundo.


Deve ser estimulada pelos sentidos em que é competente, e esse estimulo não quer dizer que deve ser exposta a grande quantidade de estímulos desordenados, mas ao contrario, a estímulos até o limite de processamento de forma que possam ser associados e ganhar significado para que possam ser pensados.


Isso é aparentemente mais difícil que dar rótulos, mas com certeza leva a resultados bem mais positivos.



Comentários

  1. o titulo ja diz tudo... mas parando pra pensar acho que todo mundo é assim as vezes, sempre dao menos atençao e escuta menos... no meu caso eu fui assim acho que a vida inteira, pois tem momento que nao quero escutar e nem prestar atençao e é como se eu estivesse me desligando do mundo. Agora percebo que é estranho não prestar atenção ao que acontece ao redor de mim... isso sempre acontece quando menos espero... É Leonardo você levantou um assunto muito sério por aqui....

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  2. Olá Leonardo ,de novo, mas e´que os assuntos que vc aborda são de fato interessantes.
    Eu tenho deficit no ouvido direito e não enxergo do olho esquerdo e eu quando ia ao oftalmologista, saía de lá chorando, pois, ainda não há uma cura para o meu problema, a medicina precisa evoluir um pouco mais, mas nada garante que eu vá enxergar deste olho. Com o passar dos anos eu aprendi o seguinte; se não posso com o meu inimigo, junte-se a ele e é o que eu faço. Aprendi a observar as pessoas, a natureza e aprendo muito com isso e quanto a minha visão eu uso o mínimo de luz possível em minha casa para poder sentir o que aquelas pessoas que não enxergam nada sentem e é um exercício que me faz ser mais sensível, ter mais percepção das coisas que acontecem ao meu redor, a ajudar as pessoas do meu convívio ou não; as vezes a gente quebra a cara, mas sobrevivemos e continuamos depois com mais força e convicção de fazer mais e melhor por nós e pelos outros. Eu fico pensando!!!!E aquelas pessoas que ouvem, mas não escutam? As que enxergam mas não vêem? Eu acredito que esta situação sim é que é triste e as pessoas perdem na maioria das vezes uma vida inteira para aprender a ver e a ouvir e nem todas conseguem!!!!!!!!!!!

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