Se você me tirar a bebida vai colocar o que no lugar?

Escuto sempre, entre familiares e amigos de etilistas eles dizerem que seus parentes ou amigos não devem beber mais. Que precisam eliminar a bebida de suas vidas.

Certa vez em uma intervenção que fiz com uma pessoa completamente alcoolizada ouvi: Se eu não beber , me suicido. Você acha que minha vida é fácil? Estou longe da minha família, não tenho amigos... Minha vida é um inferno...

Eu sabia que não era só a família distante e a falta de amigos que tornavam sua vida um inferno. A bebida também a tornava, mas antes de tudo isso uma grande quantidade de situações que ele não dava conta no seu dia a dia também.

Alias foram essas situações que o fizeram afastar da família e dos amigos, quando não dava conta de resolver seus problemas de forma saudável e se refugiava na bebida.

A falta de referenciais, de estímulos e mesmo condições básicas para seu desenvolvimento, aliadas a uma baixa estima e sensação de ser excluído por não possuir tudo aquilo que disseram para ele, através do rádio e da televisão que era importante ele possuir para ser alguém o tornou uma pessoa fraca diante dos gigantes imaginários que ele enfrentava no dia a dia.

Por nem mesmo suportar o fracasso nas relações sociais e familiares tinha que fugir do real, e apelava para a imaginação para poder distribuir a alguém sua culpa. Era macumba que tinham feito, dizia ele diante de tudo que se passava de ruim em sua vida.

Não se tratava de uma pessoa com retardo mental, pois no trabalho, onde era valorizado, desde que de boca fechada ele cumpria muito bem sua parte. Sabia fazer massa, calcular metros quadrados, quantidade de material, ordenar seu trabalho de forma lógica no tempo etc.

Contudo não sabia ser alguém diante de outras pessoas. Alias sabia que não era ninguém, que era fracassado e nem mesmo arriscava uma conversa com um colega de trabalho.

Quando a tensão, que sempre vivemos no nosso dia a dia chegava, não havia com quem dividir pensar ou compartilhar. Como não era nem um pouco popular não tinha convites para futebol, caminhadas ou outras atividades. Tinha que suportar tudo sozinho, como uma panela de pressão. Quando estava prestes a explodir não via outra saída que não beber. Não beber socialmente, mas beber descaradamente (tirar a cara cheia de vergonha). Quando fazia isso podia conversar, sem se importar que não estivesse sendo ouvido e que não estivesse ouvindo nada que lhe falavam. Mas podia falar a vontade, sem juízo, sem vergonha. Esvaziava-se colocava pra fora tudo que lhe oprimia.

Se não fosse assim como seria? Explodiria, surtando, quebrando tudo que via pela frente, deixando vasar da imaginação todos seus sonhos e angustias em sintomas psicóticos? Matava-se para por fim a tão grande sofrimento de uma vida opressora e solitária?

Pra que então tirarem-lhe a bebida se ela lhe é o único remédio para suas dores sem antes lhe dar a cura para suas angustias?

E mais ainda, porque tornar sua vida ainda mais difícil com repressões, discriminação e desrespeitos se é justamente isso que lhe leva a bebida?

Comentários

  1. olha realmente acho que muitos são os casos em que a pessoa se refugia na bebida para suprir suas necessidades, medos e carência afetiva, o sentimento de faltar algo em si, a leva a procurar ,ou melhor, a se esconder de tudo que é real, tudo que pode a magoar, a decepcionar, ela tenta fugir e se trancar em um mundo só seu, um mundo imaginário onde nada pode a atingir, onde um copo de alcool a deixa blindada contra tudo e todos.... tambem concordo que nessa fuga em tentar se livrar do que a incomoda ao contrario de lutar e enfrentar o problema, a leva cada dia mais ao fundo do poço, e que sem uma ajuda para que ela possa enfrentar seu "eu", vencer seus medos e suportar as barreiras que aparecerão, ela sozinha dificilmente conseguiria abandonar essa suposta solução dos problemas... chamada de "alcool". Camila Faria

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