Finge que é atendido que eu finjo que te atendo

Muitos profissionais da assistência, apesar da boa formação teórica, conhecimento da historia da assistência social ainda possuem grande dificuldade de se colocar como agente de efetiva assistência.
O ranço assistencialista que ainda existe, toma formas diversas nos atendimentos atuais.
A grande dificuldade de sair do próprio centro, dos próprios referenciais para enxergar o sujeito como ele se apresenta com seus próprios valores.
Quando estudava psicopatologia na faculdade, a professora Marly, excelente professora, nos contou sobre o mito de Epicurio, um personagem que esticava ou cortava seus hospedes para caber em sua cama. Hoje vejo muitos profissionais ao atender, deformando seus usuários para encaixarem eles em seus encaminhamentos.
Não estou dizendo que exista má fé desses profissionais. Alias Epicurio era uma pessoa muito generosa a sua maneira pelo que sei. Falta talvez um senso crítico e uma disponibilidade empática capaz de romper a barreira das individualidades. O efeito colateral disso é sistêmico, como tudo que envolve pessoas. Pois o usuário de maneira ativa também se deforma para poder se encaixar nos encaminhamentos, nas formas de intervenção dos profissionais.
Lembro-me que existiam muitas modas no albergue de Campinas. Havia época que todo mundo queria tratamento de saúde, outra procurar trabalho, ou ainda curar-se da dependência química. E no fundo o que queriam mesmo, eram ficar mais tempo no albergue. Nem sempre porque isso era melhor para eles, mas era o que conseguiam perceber como necessidade imediata. O pouco numero de profissionais e a grande demanda, não permitia uma reflexão mais aprimorada de cada caso, apesar da competência dos profissionais para isso. Tinha que ser tudo rápido. Ai o usuário vestia de forma rápida também a roupa que lhe davam.
Hoje muitos serviços da atenção básica a especial já possuem um quadro preconcebido do que seja a necessidade do usuário. Bolsa Família, Cesta Básica... ou mesmo grupos idealizados e criados pelos próprios profissionais para atender aquilo que eles acham problemático.
Muitas vezes o que falta é simplesmente o sujeito ser ouvido, refletido. Nada mais!
Ai ele busca, por força de seu vazio um serviço e representa esse vazio como fome (cesta básica), falta de dinheiro (bolsa família, renda mínima...) e tem de forma paliativa a sensação de ter sido atendido.
Ele finge que é atendido, para continuar usufruindo de algo que acha que o ajuda, que não é necessariamente o que o profissional acha que está dando, e o profissional finge que está atendendo, pois se questiona rotineiramente as recorrências de seus usuários.

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