Internação Compulsória x Vínculo

Tudo bem que quando em uso compulsivo da droga, principalmente o crack, dificilmente a pessoa está consciente suficiente para aderir ao tratamento. Até porque a compulsão pela droga é capaz de interferir nas suas funções psíquicas.
Mas a questão é: A ajuda forçada funciona?
Entendo o desespero, bem intencionado, de querer ajudar alguém que de forma compulsiva destrói sua vida. E que muitas vezes no ímpeto momentâneo de querer ajudar “tudo vale”.
O que tenho aprendido sobre a dependência química é a importância do vínculo. Sem ele dificilmente há sucesso na intervenção. E daí o grande problema da internação compulsória é que ela dificulta grandemente, para não dizer que vai contra ao vínculo que pode ajudar o indivíduo. Não digo que seja impossível haver vínculo quando há internação compulsória, pois como psicólogo sei também que esse se dá das mais diversas formas e tem os mais diversos significados dentro da história de cada pessoa.
É o vínculo que vai fazer o usuário a aderir ao tratamento!
Muitos que hoje estão nas cracolandias das grandes cidades já pensaram e muitas vezes até tentaram tratamento, mas se ainda estão lá é porque não deu certo. E é mais difícil ainda que se dê sem algo a mais que o faça aderir integralmente ao tratamento.
Às vezes o argumento para internação compulsória é: ele sendo impedido por um tempo de fazer o uso da Substância Psicoativa poderá decidir pelo tratamento. Isso é valido. Mas vale lembrar que na maioria dos casos ele em outros momentos já decidiu parar de usar, e como não deu certo, e ouve uso da droga por mais tempo sua dependência se tornou ainda mais complexa e assim mais difícil de aderir. E se não aderir o que vai segura-lo no segundo momento após a internação compulsória? Se não há vinculo resta somente a contenção física ou farmacológica que se emparelham no quesito violência contra a pessoa e tornam o tratamento ainda mais improfícuo.
Mas ai o que fazer?
Minha sugestão é valorizar o vínculo em todas os níveis: na prevenção, quando a polícia, e as pessoas que falam sobre não usar as drogas não sejam julgadoras, e significadas como caretas e antiquadas; nas emergências, nos pronto atendimentos onde o usuário não seja taxado de bandido, criminoso ou vagabundo e ao contrario encontre no profissional da saúde um parceiro disposto a lhe ajudar; nos serviços especializados, tanto na assistência social (população de rua etc.) como na saúde nos CAPS AD, redução de danos e consultórios de rua quando possa ser respeitado, seja compreendida suas dificuldades e respeitadas suas recaídas e valorizada a sua motivação.
Isso se torna mais difícil quando sem valorizar a escuta, o vínculo e a motivação as cartas foram queimadas por encaminhamentos aleatórios na tentativa de ajudar. Mas não é impossível! Basta lembrar-se do vínculo!

Comentários

  1. Maravilhoso! Enxergar no outro além das aparências...enxergar o "ser humano" cheio de falhas mas também cheio de virtudes, sonhos invisíveis pelos nossos julgamentos, mas que estão lá, apenas precisam ser "cultivados" pelo nosso respeito, acolhimento e afeto. Os vínculos, que eu chamo laços afetivos, são essenciais a qualquer ser humano.

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