Internação


Meu Pai é um alcoolista,
Por varias vezes foi parar no Pronto Socorro,
Tomava glicose na veia e era sempre liberado,
Sem ninguém falar mais nada do porque bebia,
Ou de como parar.
Ele também sofreu muito com meus avôs, também alcoolistas,

Direto e reto ele espancava minha mãe,
Que não podia falar nada para ninguém,
Com medo de perder meu pai,
que ela amava muito e dizia compreender “o porquê” ele era assim.
Por varias vezes minha mãe foi ao posto de saúde fazer os exames de rotina,
E nunca ninguém lhe perguntou nada,
Daqueles hematomas que ela trazia por todo o corpo e a todos causava estranheza.

Nem mesmo a assistente social que nos dava uma cesta básica todo mês,
Indagou “o porquê” ela com muitas dores pelo corpo não conseguia carregar a cesta sozinha.

Resolvi sair de casa,
Apesar dos meus amigos vizinhos,
Meus familiares que moravam perto,
Mas não sei,
Incomodava-me estar em minha casa,
Ver tudo que via e como as moças do posto ou a assistente social ser também indiferente.
Parecíamos invisíveis.

A noite na rua eu era alguém,
Eu gritava e eles me respeitavam,
Era machão, forte...
E por isso não pude recusar quando me ofereceram uma pedra de crack.
Foi muito louco.
Um prazer imensurável,
Fui ao Céu e logo em seguida ao inferno.
Um vazio, medo,
O fundo do posso, a paranóia e a vergonha.
Não dava para pensar em outra coisa que não, ter outra pedra
E tentar recuperar o Céu. Outra pedra, outra pedra...
Até que eu não agüentasse mais.

No dia seguinte acordava sendo chutado por um dono de loja que queria que eu  se afastasse daquele local.
Ninguém me perguntava o porquê eu estava ali e do que eu precisava,
“Vai circula!!! Some daqui!” 
Não me viam como pessoa, mas como um cachorro sarnento.

Numa noite, esse pessoal que nunca me viam resolveram me ver!
Nunca achei que eu fosse tão importante.
Gente armada policia, televisão e varias pessoas para me agarrar, machucar e me levar para uma prisão que eles chamavam de casa de recuperação.

Essa gente que não me via agora parecia me tratar como um perigo.
Que devia ser isolado e dopado, o tempo todo, para não dar trabalho.
Diziam querer me ajudar, mas nunca olharam para mim de verdade.
Olho no olho.
Nunca perguntaram para minha mãe do seus hematomas, que até podia me visitar se ela tivesse dinheiro para pagar a passagem de ônibus, ou do meu pai que quase sempre estava embriagado.

Se em casa eu não me sentia bem, pelo menos podia entrar e sair,
Podia ver meus amigos.
Ali não.
Eu tinha que ser escondido. Eu do mundo e o mundo de mim.
Para ficar abstinente da Pedra. O que até era bem fácil.
Difícil era viver a vida que eu estava vivendo.
Ser invisível. Não ser importante para ninguém.
Não via a hora de sair de lá para poder experimentar o Céu novamente,
Já que a terra realmente não me pertencia.

Comentários

  1. Historias diferentes e ao mesmo tempo tão parecidas,esse texto me fez refletir e ver que temos que fazer algo.Hoje voltando do trabalho vi varias pessoas jogadas no chão e outras passando por sima como se nada fora,me deu um sentimento de revolta,precisamos nos movimentar e tomar atitudes mesmo que na proporção que podemos,contudo ainda não achei a formula.
    Marcelo Leonardo

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